domingo, 27 de maio de 2007

Sépia




Colcha de retalhos
Fotos recortadas em tom de sépia
Assim apago da memória
Meu passado, minha dor

Sei que cada um tem sua história
É preciso a base para construir algo
Não há como arrancar as raízes
Mas, por favor, não quero lembrar-me

Lembrar das origens, dos tempos de dores e repressão
Do tempo que achava que era feliz, pois nada me faltava, senão a liberdade
E que nada é esse, se a liberdade é o maior bem que um homem digno pode possuir?

Iludido, oprimido, coagido
Dolorido... sofrido
Esse é meu passado em tom de sépia

Saudosista, histórico
Até belo, quem sabe
Mas contra o qual eu luto todos os dias
No recalque da minha mente
Para que um dia se encha de cor.


Verdade, é bem aquela sensação de "viver o que não fiz". Vide "Minha vida sem mim".

Na foto: Patrícia Galvão (Pagu)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Nocturno



Noites taciturnas
Medo profundo e obscuro
Algia intensa
Solidão imensa
Nem mesmo a lua me acompanha mais


Estou aprisionada nesse castelo
Olhos atônitos
A ermo, sigo por entre os corredores de braços, meu único
caminho, passagem obrigatória

Eles me seguram, me sufocam
Inutilmente tento me livrar
Enquanto isso, fitam-me os quadros à luz de velas
São rostos expressivos, paradoxo de horror e gargalhadas
Riem, riem muito da minha face de criança ingênua e apavorada
Debulho-me em lágrimas escarlates e cerro os olhos
Trêmula, desejo que esse pesadelo acabe
Mas as vozes permanecem


Poderia ser mais forte do que isso?
Quando ocorre o frêmito do desespero, o silêncio reina
O grito, na iminência de sair, queda na garganta
Estranho...
Não penso
Não me assusto
Nem me alegro
Fico impassível

Já não sei se é a paz, benevolente em sua essência, que veio me resgatar do desvario
Ou apenas uma premonição, de algo ainda mais nefasto que me aguarda no fim do corredor.


Não tem nada que magôe mais um ser humano do que brigar com alguém que se ama... TPM? É a velha boa desculpa das mulheres. Tristeza mesmo, pura e honesta. Não há porque fingir, não aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Adeus

As palavras entram de maneira suave em meus ouvidos
Por dentro, espetam como finas agulhas que incitam o choro
E causam a paralisia que só excede o coração

É hora
Nada de belo a ser dito
Nem esperança a ser citada
O tempo, esse sim é irremediável

Mas não se trata de tempo
São caminhos que tecem rumos distintos
O sentimento é atemporal
Mas a emoção é cotidiana

Nem notei o óbvio
Mas não me espanta que ocorra
Egoísmo negar um pedido tão sincero
Não confunda com educação

Vai com as folhas
Antes que chegue o inverno e o frio te tome por completo
Não se arrependa de nada
O bom da vida é mesmo usá-la como página de rascunho, usada

Espontaneidade há muito havia deixado de ser o meu forte...
Não mais
Agora me exponho tal criança sedenta por experiência
Me lanço ao desconhecido assustadoramente sedutor
E, ao mesmo tempo, ainda estou sozinha envolta no manto do cuidado
Com só um objetivo fixo capaz de cegar qualquer medo

Não importa o que quero dizer, não estou sendo generosa
Apenas preciso fazê-lo

Muitos apesares depois, até a realidade encanta
No mínimo, curioso
E não, mesmo que seja verdade, nunca uso Adeus
A nós.


mai 2007


Foto: Luciana Zacarias