quarta-feira, 29 de julho de 2009


Paixonite Linguística

Por muito tempo te esperei
Mas já me habitava com discrição
A língua, a sede do saber
Coisas tão minhas, que não permito facilmente tocar

Partes de um todo que sou eu
Elementos vivos de uma paixão
Meu maior tesouro, dentro de mim mesma

Talento intestino
Alegria visceral
Revele-se.

Meio dia no sertão



Ravinas formam teias por todo o chão de barro. A sala escura e abafada é sustentada pelas varas. O chinelo de couro no canto do cômodo, o chapéu de palha caído, a pexêra queda na cintura do homem entristecido. Seu rosto lembra a textura do solo. Todo o silêncio é rompido pelo ronco da barriga que logo cede a mistura de farinha e água.

2007

Imagem: Retirantes (1944) - Portinari

PS: Reparem na implícita simbolização da morte, através da imagem de uma foice, que o urubu forma com o cajado do velho.

Reflexão sobre o amor



Você me poliu. Com sua lima afiada, deixou-me redonda em folha. Brilhante, como o lustre que fez questão de pendurar em nosso teto. Talvez como um troféu, para lembrar o quanto foi difícil nos adaptarmos.
Pouco romântico? Pura realidade, que custei a aprender. Para que mentir, se a convivência é realmente exigente? Admiro casais sinceros. Polidos como uma estátua. Imóveis, embora passíveis às ações do tempo. Magnetizados pela união.


jun 2009

Término?



Seus olhos
Ferida aberta
Me seca
Aonde quer que eu vá

Seus olhos
Mais que um ano
Dois planos
Que não querem cessar

Seus olhos
Castanhos
Me cercam
Querendo adentrar

Meus olhos
Te dizem
Calma
Ainda quero ficar

Imagem: "The day after" (1894) - Edvard Munch