terça-feira, 5 de agosto de 2014

Um retrato baiano: Capitães da Areia (Sem-Pernas)

O Salto. Foto: Luciana Zacarias

Um dos capítulos mais tocantes de Capitães da Areia é “Família”, logo na primeira parte do livro. Esse tem como foco o personagem Sem-Pernas e a sua moradia na casa de uma rica família do bairro da Graça.
Não foi à toa a escolha do personagem. Com ironia, Jorge Amado opta pelo mais rancoroso, amargurado e carente do bando para o papel de bom menino em busca de uma família que o resgate. Esse atua de forma magistral ao fazer o apelo que nega sua própria realidade: “Se eu quisesse me metia aí com esses meninos ladrão. Com os tal de Capitães da Areia. Mas não sou disso, quero é trabalhar. [...] Sou um pobre órfão, tou com fome...” (sic). Além disso, ele utiliza o próprio defeito físico para se reafirmar como coitado e causar comoção no outro.
O cinismo da postura inicial de Sem-Pernas demonstra uma situação ainda tão atual quanto na década de 30 (época do livro e da história). São meninos excluídos por uma sociedade elitista, carentes de afeto, moradia, alimentação, educação, lazer, e que para sobreviver aproveitam-se da piedade de alguns ricos para depois roubá-los. O aumento da pobreza e a banalização de fatos como esse provocam a diferença entre ontem e hoje, no qual esses meninos são ainda mais repudiados.
É chocante ver a ingratidão de Sem-Pernas ao viver à custa dessas pessoas que o adotam, desfrutando de tudo que lhe era oferecido, enquanto calcula como será o assalto na casa onde reside. Apesar disso, é ao longo do capítulo que o mais frio e complexo dos Capitães da Areia se humaniza aos poucos e vive um paradoxo psicológico. Ele gosta do tratamento que recebe, mas não consegue se doar em retorno e nem pode desfrutar do amor familiar que sempre quis. Ele sabia que se acomodar a essa situação seria abandonar o seu grupo, ao qual tinha muito respeito. Ao mesmo tempo, também se sente mal por estar num meio que não se identifica e por não acreditar que gostem dele de verdade, mas da lembrança do filho falecido que ele revive.
É emocionante perceber o arrependimento do menino. Ao ceder aos carinhos maternos de Dona Ester, este se revela frágil e sentimental, tal como fingia ser, mas ainda traumatizado com a violência que sofreu. Apesar de prosseguir com a idéia do furto, no final do capítulo o mesmo se nega a receber o dinheiro da sua parte, prova de uma verdadeira metamorfose.
Numa análise bem próxima do cotidiano, percebe-se a enorme disparidade econômica, social e cultural entre esses elementos da mesma sociedade. É uma crítica aos valores burgueses, às diferenças de classe e à hipocrisia contida nessas relações, que mascara o preconceito de ambos os lados.

AMADO, Jorge. Família. In: Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 2002.



*Texto integrante da coletânea "Prêmio Literário Valdeck Almeidade Jesus 2012", lançado durante o 27º Salão do Livro e Imprensa de Genebra (Suíça), em maio de 2013. 

2 comentários:

Carla Fontes disse...

Capitães da Areia! Simplesmente, ado ro!

Luciana Zacarias disse...

É um livro imprescindível mesmo, amiga.

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